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HISTÓRIAS VERÍDICAS
Na manhã do dia 04 de janeiro de 99 eu cheguei em Salvador depois de quase 12 horas de viagem de ônibus (pra quem não sabe Salvador é bem longe de Porto Seguro) e mais de uma semana de farra – estava exausto. Fui recepcionado com a notícia de que estava com um “calo” no nervo auditivo, mas nem dei importância, fui direto pra faculdade assistir uma aula (estudei Administração Na UFBA). Minha mãe inventou este termo pra não me dar a notícia de uma vez, ela já tinha conversado com meu médico (Dr. Eduardo Barbosa – esse eu gosto de graça!). De noite ela me levou num centro espírita (minha mãe foi uma das grandes estudiosas e conhecedoras da doutrina espírita) pra que eu tomasse um passe. Lá, quando ela falou pro médium o meu problema (um “calo” no nervo auditivo de mais ou menos 3 centímetros), foi que caiu a ficha: eu tinha um tumor! Por isso que minha mãe tava com a voz triste no telefone na noite de reveillon! Não preciso nem falar que me desesperei na hora, voltei aos prantos no carro e tinha certeza que ia morrer. Aquela noite foi longa, eu tinha a plena convicção de que estava ferrado. Eu tinha 22 anos nessa época.
No dia seguinte fui ao consultório de Dr. Eduardo e pedi aos meus pais pra entrar sozinho. Na sala de espera li uma reportagem sobre um halterofilista que teve um tumor de 4,5 centímetros no fígado e morreu, o tumor era grande. Pensei que se um de 4,5 era grande na barriga, um de 3 era gigante pras dimensões da cabeça! Tive mais certeza ainda de que ia morrer. Lá dentro, ouvi todas as explicações que quem já teve um neurinoma já ouviu. Dr. Eduardo me disse que eu devia operar e que a seqüela mais provável no meu caso seria uma paralisia facial, já que o tumor era grande e a audição do ouvido direito eu já tinha perdido (perdi sem nem notar, foi por causa desta perda que eu fui ao médico). Ele me indicou um médico em São Paulo que era um dos grandes especialistas em neurinoma do acústico no Brasil, Dr. Ricardo Ferreira Bento. Na Segunda-feira dia 11 de janeiro eu estava embarcando pra São Paulo com minha mãe. Parti confiante, o medo de morrer tinha dado uma trégua.
No mesmo dia que cheguei em São Paulo fui ao consultório do Dr. Ricardo, ele confirmou o diagnóstico e combinamos de operar no HC - Hospital das Clínicas pelos SUS, pois na época não tinha plano de saúde. Ele mandou que eu comparecesse ao HC para outra consulta. Nesta consulta fiquei numa sala com um monte de médicos residentes (acho que entre 9 ou 15) e Dr. Ricardo e sua equipe explicando a eles o meu caso, mostrando os exames de ressonância. Aquilo era uma aula. Eu não entendia nada do que eles falavam, alguns residentes me olhavam com uma cara tipo “meu camarada cê tá lascado” e eu fiquei muito nervoso. Mas bota nervoso nisso, eu achei que Dr. Ricardo ia chegar pra mim e dizer: Guilherme, o buraco é mais embaixo. Isto demorou uns 20 minutos, ao final fui conversar com o Dr. Rubens, que me falou exatamente o que eu já tinha ouvido do Dr. Eduardo e do Dr. Ricardo: fiquei aliviado. Comecei a me tremer todo, não conseguia me controlar, mas estava alegre.
Dessa data até a data da operação passaram-se 2 meses, neste meio tempo pude rever familiares que não via a mais de dez anos. Foram 2 meses ótimos, eu fui de uma frieza indescritível, nem parecia que estava prestes a ser operado. Minha mãe era paulista (digo era por que em fevereiro de 2000 ela faleceu, deixando uma saudade imensa) e tenho tios e primos que moram lá e me deram todo o apoio “logístico” e sentimental também. Nesse meio tempo recebi a visita de dois grandes amigos meus de Salvador que estavam de passagem por São Paulo, Luís Hamaji (também conhecido como Jaspion ou Pedra) e Náira, que na época eram namorados.
Bem, resumindo, no final de fevereiro operei no HC com Dr. Ricardo. Minha recuperação foi muito boa e o tumor tinha sido totalmente retirado. Meu nervo facial não tinha partido, mas fiquei desde então com uma paralisia facial do lado direito, um zumbidinho no ouvido (que a gente acostuma, mas as vezes enche o saco) e a audição do ouvido direito completamente perdida, como desde antes da operação.
Como já disse, em 2000 passei por uma experiência infinitamente pior do que a que havia passado com a operação do neurinoma, a morte de minha mãe. Desde então temos tido que a reaprender uma séria de coisas eu, meu pai (o velho Norman) e meus irmãos (Norman, Fred e Martinha). Por causa da paralisia confesso que passei a evitar aparecer muito em fotos, apesar de adorar fotografia – prometo um dia aprender a fotografar com categoria. Melhorei cerca de 60% da paralisia facial com o passar do tempo. Não vou mentir que eu poderia ter me aplicado mais na fisioterapia e que talvez tivesse alcançado resultados melhores, mas deixa pra lá! Parece que o destino quis pregar uma peça e colocou em meu caminho em agosto de 2001 uma fisioterapeuta chamada Melissa, minha namorada. Desde 99 faço um controle com o Dr. Eduardo e exames de ressonância magnética anualmente, mas agora em 2003 um exame de ressonância trouxe uma surpresa. Uma surpresa bastante chata...
Fui pegar o resultado desta ressonância numa sexta-feira, faltando menos de cinco minutos para fechar o setor de entrega de resultados de exames do Hospital San Rafael. Cheguei correndo e me encontrei com meu pai no hospital, deixei minha pasta com ele e fui correndo até o local de entrega. Chegando lá peguei o laudo e comecei a ler. Quanto mais eu lia mais eu me desesperava. Meu pai fazia perguntas e eu dizia pra ele que parecia que o tumor tinha voltado. Parei de ler o laudo e levantei a cabeça, quando entrou na sala Renata, uma ex-vizinha que estava fazendo residência no Hospital San Rafael. Pedi ajuda a ela, mas ela me disse que seria melhor conversar com o pessoal da radiologia e que Marcinho, um amigo meu que eu não via a muitos anos estava fazendo residência neste setor. Fomos até lá e ele me disse que o que a imagem estava mostrando poderia ser uma espécie de fibrose, que eu deveria consultar o meu otorrino para sanar a dúvida. Nem preciso dizer como foi o fim de semana, até fui num jogo do Bahia pra me distrair mas não adiantou muito. Não consegui parar de pensar sobre o exame.
Na segunda-feira fui ao consultório do Dr. Eduardo, que me disse que aquilo poderia ser mesmo uma fibrose, mas que eu deveria fazer uma consulta com o Dr. Ricardo Bento em São Paulo. Lá fui eu de novo pra São Paulo com meu irmão Frederico. No consultório do Dr. Ricardo, antes de abrir os exames, ele me disse que poderia ser mesmo uma fibrose. Mas após uma olhada ele diagnosticou: rescidiva. É claro que eu chorei. Mas em poucos minutos eu já tinha caído em mim, não havia como lutar contra o inevitável, eu teria que ser operado novamente. O tumor era pequeno, porém com uma localização um pouco mais complicadinha. Perguntei ao Dr. Ricardo se a situação era mais difícil que da primeira vez. Ele disse que sim, mas me falou um “fique tranqüilo que vai dar tudo certo” que me acalmou muito. Todas as vezes que eu pensava em besteira eu me lembrava dele dizendo isso.
Decidi não operar de vez. Queria voltar a Salvador pra rever umas pessoas, uma em especial: Melissa minha namorada. Tive medo de morrer e nunca mais vê-la novamente. Gastei um dinheiro a mais com passagens mas não me arrependo. Voltei e resolvi todos os entraves burocráticos de Salvador mesmo, marquei minha cirurgia pro dia 28 de maio de 2003. Viajei pra São Paulo com meu pai no dia 26, fui internado no Hospital das Clínicas no dia 27 e no dia 28 de manhã cedinho Melissa me ligou e depois a enfermeira entrou no meu quarto pra me levar ao Centro Cirúrgico. Entrei no Centro Cirúrgico brincando com os médicos, fazia tudo aquilo pra driblar o nervosismo.
Só me lembro de ter acordado e de ter demorado um tempão pra conseguir levantar o braço pra chamar alguém. Fui levado de volta pro quarto e fiquei mais 6 dias no hospital. Estava com metade da língua paralisada e tinha muita dificuldade para falar e comer. Com o passar dos dias a fala melhorou e comecei a comer sozinho. Eu me sentia como um campeão olímpico por conseguir fazer estas coisas. Na verdade eu fui mais que isso. Modéstia a parte eu fui um herói, hoje eu compreendo melhor algumas coisas, mas não vou ficar aqui dando receitas, fazendo psicologia barata. O importante é que estou vivo, feliz, saudável e amo a vida acima de tudo.
Existem problemas maiores do que um neurinoma, eu sei. Mas um neurinoma não é pouca coisa. Dois então!
Guilherme de Arruda Poetzscher
Salvador – BA
guilherme.ap@terra.com.br
www.gap100.hpg.com.br
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