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HISTÓRIAS VERÍDICAS

Eu, Elci

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Tentarei transmitir com o máximo de fidelidade a minha história, e rememorar os aspectos mais importantes, uma vez que as ocorrências de Neurofibromas me aconteceram em intervalos bastante grandes.
Nasci em 1972, tenho 31 anos de idade hoje, na zona rural de um pequeno município do Estado de Goiás: São Luís de Montes Belos – GO. Meus Pais: ele trabalhador rural, ela costureira, tiveram apenas escola primária, mas conquistaram a propriedade de um pequeno sítio no local.
Eu desde a pré-alfabetização sonhava “profundamente” em estudar, e com o passar dos anos em ser uma grande profissional, e em me tornar “um dia” uma pessoa culta. Meus Pais acreditaram na minha convicção inata, e fizeram seus o meu sonho, e me possibilitaram realizá-lo (ou em parte).
Fiz essa pequena introdução, pois foi esse sonho “preludiano” que definiu toda minha história de vida.
Bem ... me mandaram para cidade, e após o ginázio custearam meus estudos em escola particular, onde sempre tive um desempenho muito bom, mas não excepcional.
Mais ou menos aos 14 anos de idade comecei a ter “choques” no braço esquerdo, ficava avermelhado em alguns locais, e quando espirrava me apoiava nos locais mais próximos, pois parecia que ia cair com o choque. Fui encaminhada ao Instituto Neurológico de Goiânia, os exames disponíveis (à época eletroneuromiografia e afins) não evidenciavam a causa, apenas via-se uma lesão num nervo “tal” (não lembro mais). Os analgésicos não faziam efeito, comecei a ter atrofia nesse braço, que melhorava com as Fisioterapias e depois voltava. Fui então encaminhada ao Hospital SARAH de Brasília, era 1988. Também não evidenciou-se a causa de início, mas o medicamento deve ter proporcionado alguma melhora.
Só sei que terminei o 2º Grau, e me mudei para Ribeirão Preto – SP, para fazer cursinho pré-vestibular, indo morar na casa de uma prima materna. Tive meu primeiro emprego, queria ser independente. Fiquei lá 1 ano e voltei para fazer vestibular em Goiânia, a pedido do meu Pai.
Fiz vestibular para Economia, na PUC de Goiás: Universidade Católica de Goiás se chama aqui. Passei de primeira, e também não era muito concorrido (1990). Mas ....................................... voltaram as dores e a atrofia no braço.
Voltei ao SARAH. Faziam-se uma injeção de anestésico na região da clavícula e eu ficava mais ou menos 1 mês sem dores, mas aí eles disseram: “tem algo errado”, eu tinha que ficar uns 6 meses sem dor, ou poderiam até desaparecer as dores. Fui para Tumografia, e não deu outra: um tumor toráxico. Minha Mãe ficou com os joelhos calejados de rezar, costumo dizer que a família sofre mais que a gente mesmo.
Fui para cirurgia (setembro de 1991), e o resultado da biópsia veio em seguida: era um Neurilenoma. O que é isso? Eu perguntei, parecia “um xingamento”, tamanha ignorância sobre o assunto. Me explicaram que era um tumor benigno, que a cirurgia tinha sido um sucesso, e que podia eventualmente voltar, então teríamos que acompanhar “por uns 7 anos”. Há!, o meu médico no SARAH se chamava Dr Nelson ..., e o cirurgião veio do Rio, Dr. Ximenes (especialista em “toractomia”, acho que é isso: quero dizer neurocirurgia do tórax)
Faltou falar de um detalhe: eu era uma jovem muito alegre, com muitos amigos e fazia muita festa, tomava cerveja e fumava cigarro, desde os 14, 15 anos (ou menos). E a cirurgia foi tão bem sucedida, que com 30 dias estava eu “fazendo festa, bebendo e fumando”. A única seqüela foi uma cicatriz de uns 12 cms na região do tórax, meio lateral, e para uma jovem de 19 anos, à época, foi ruim ver, o primeiro impacto foi horrível, mas ....... tinha que ser feliz, afinal NENHUMA SEQUELA.
Os primeiros exames não mostraram recorrência do tumor, eu estava muito bem. Terminei a faculdade, e meio que me “apaixonei” pela economia. Eu já estagiava na Católica, e continuei por meio de um convênio com uma Secretaria Municipal (Desenvolvimento Econômico), cujo titular era um Professor da Católica. Fiz grandes amigos entre eles (os Professores), e até um “love affair” rompido posteriormente, que me convenceram a fazer seleção para um curso de Mestrado. Em 1996 fiz, e passei !!!!!!! Foi muita alegria: passei no Mestrado em Economia Social e do Trabalho, na não menos que UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas – SP. A Católica me intermediou uma bolsa de estudos, ia dar aulas naquela instituição ao concluir o curso. SUCESSO!!!!!!!!!
Engraçado ................, tinha um caroçinho no rosto, para mim foi uma espinha que uma amiga espremeu ainda na adolescência e ficou aquele leve inchaço. De vez em quando alguém o notava e me perguntava o que era, e isso me incomodava. Estava na Unicamp, então vamos ver o que é. De lá me mandaram para o Hospital Mário Gatti de Campinas, onde tem uma importante Unidade de Dermatologia, com residência médica nessa especialidade. O Médico coordenador chamava-se Dr. José Roberto. Então tiraram uma pequena amostra para biópsia, e de novo deu: NEURILENOMA. Que coisa!!!!
Esse mesmo Dr. Roberto me explicou que eu parecia ter uma tendência justificável para formação desse tipo de tumor, queriam fazer alguns exames meus. Mas a unidade era muito cheia, tudo custeado pelo SUS, e eu estava muito entretida com a vida. Ficou para depois.
A turma do Mestrado era a melhor que já existiu no IE da Unicamp, chamava-nos de os “almôndegas” de tão unidos, e fazíamos muita festa. E muito estudo, mas muita festa. Participei de uma pesquisa com o Ministério do Trabalho, viajei meio Brasil, e para quem veio do pequeno mundo que vim foi fantástico. Trabalho à parte, conheci as principais metrópoles do país, com algumas regalias: passagem aérea e hotel 5 estrelas em boa parte das viagens.
Mas nunca tinha escutado falar em Neurofibromatose, até 1999. Foi quando ocorreu a grande fatalidade, e aí sim “eu acordei” para a minha realidade. Mas assim como no depoimento do Bruno: não acho que a Neurofibromatose é um “bicho de sete cabeças”.
Janeiro de 1999, fui ao Rio de Janeiro com uns amigos do Mestrado assistir ao show do Chico Buarque (Cidades), ele tava voltando ... foi lindo ver e ouvir!!!! Mas eu já estava com um zumbido intenso nos ouvidos, acho que dos dois ouvidos. Há algum tempo vinha tendo náuseas, mas eu tomava cerveja e achava que estavam associadas à cerveja. Fui parando de tomar. Depois, anormalidade na menstruação, ficava com sangramento até 15 dias (hipermenorréia). Estava no centro de atendimento à comunidade Unicamp, e os meus exames estavam todos bons (hemograma, cardíograma, diabetes, pressão, hormônios tiroidianos, ginecológicos e até AIDS ...... você fica desesperado). Mas tudo bem, É STRESS, afinal tava fazendo dissertação de Mestrado.
Pulei carnaval em fevereiro de 1999, quando foi março o meu “meio” que namorado na época, era fisioterapeuta, me deu a notícia: “VC NÃO ESTÁ SÓ COM STRESS, VC NÃO TÁ ESCUTANDO BEM”. Imagina, que Idéia !!!! Nunca tive problemas de audição. Mas ele insistiu no assunto, começou a fazer testes com o aparelho de som. Não notei nenhuma diferença. Ele trabalhava em São Paulo, foi embora e me pediu: “observa sua audição durante a semana, seu relacionamento com as pessoas”. Ele saiu e eu fui fazer um teste com o telefone, no 130 ... incrível mas o ouvido direito não entendia mais nada. Eu tinha canalizado a comunicação via telefone só para o ouvido esquerdo e não tinha percebido.
Daí pra lá, uma série de Otorrinos, lavaram meu ouvido para ver se não tinha rolha, fiz o Bera e Audiometrias, era um médico de uma clínica particular de Campinas (Rezende Paula acho), não podia esperar a Unicamp. Então o médico dessa clínica me disse: “é processamento central”. O equilíbrio não tava bom, mas eu não tinha notado. Tomei remédio para Labirintite uns 2 meses, mas a audição só piorou. Meu Deus !!!! Já não entendia mais nada.
No plano psicológico você fica meio louco: eu dividia Apartamento com 2 amigas (Márcia e Rosângela, que foram verdadeiras irmãs), dividia o quarto com a Márcia, que também fazia Mestrado comigo, eu já não deixava mais ela dormir: conversava a noite inteira, dormindo, gritava socorro no meio da noite, em sonho. Até hoje não entendo bem esse fenômeno. Solução: tínhamos um 3º quarto reversível que fazíamos de escritório, tirei o escritório e me mudei pra lá.
Bem a Márcia namorava um médico que acabara a residência na Unicamp (o Gustavo), e ele falou: “quero te levar para uns profissionais que eu conheço lá, pessoas em quem confio”. Fui, e depois de longa consulta, em que me fizeram recuperar toda essa história que estou contando, falaram vamos te internar para fazer TC e RMN mais rapidamente, se não teria que ficar na fila, pois era recurso do SUS.
Meu Deus, e minha família, como dizer isso a eles. Decidi passar 1 semana com eles, mas não ia contar da internação, só disse que teria que fazer mais exames. Mas meu estado era assustador, quando você passa pela perda de um sentido é uma situação desconcertante, disseram que eu já estava fazendo excelente leitura labial, desenvolvi sozinha, mas me sentia completamente perdida e repetia sem parar: “não estou escutando” !!!!!!.
Bem ..... voltei e deu errado, pois me chamaram para internação antes da chegada, então a Márcia ligou para meus Pais e contou. Eu já estava no caminho e não pude acalmá-los. Eles ligavam sem parar no Hospital.
Quando fiz a Tumografia o Gustavo assistiu (namorado da Márcia), foi no quarto e me deu a notícia antes dos médicos, era meu amigo e achou que faria com mais jeito: era o Neurinoma do Acústico Bilateral. Engraçado, do lado direito era menor (- de 2 cm) e eu tinha perdido a audição primeiro. Do lado esquerdo tinha já 3,2 cms. Nessa época, eu estava com exatos 27 anos de idade.
Meu Deus, daí me força. E aí, realmente, entra o lado religioso, que foi fundamental. Em 1995 fiquei muito amiga de uma colega da Faculdade que era da Seicho-No-Ie (filosofia oriental), que me presenteou com muitos livros da “seita” e me levou a algumas reuniões. E ficou muito forte conceitos como: “VERDADEIRA EXISTÊNCIA DO SER, filho perfeito de Deus, vida eterna e, principalmente, A DOENÇA NÃO EXISTE VERDADEIRAMENTE no mundo de criação de Deus.” Poxa !!, isso estava interiorizado em mim, e fez muita diferença.
Tive formação católica, meus Pais sempre foram muito católicos, mas sempre tive curiosidade pela Doutrina Espírita. E pode parecer muito antagônico, fui para Campinas para estudar Mestrado, mas minha casa era ao lado do CEAK – Centro Espírita Alan Kardec de Campinas, e já no ano que cheguei me matriculei para fazer o curso de Iniciação a Doutrina. E posso dizer, categoricamente, que a Doutrina me salvou. Isso, porque além do Neurinoma eu vivi a “dor maior” do mundo.
Peço licença para detalhar esse acontecimento, pois acho que serve para as famílias dos portadores de NF2, ou situação semelhante, se precaverem e se fortalecerem.
MEU PAI, .... MEU GRANDE AMOR DESSA VIDA, nada que se assemelhasse com “complexo de Édipo ou Jocasta”, mas o amor mais puro da face da terra. Bem, ele tinha 59 anos à época, vivia no sítio, não bebia, não fumava, nunca tinha sido internado, era muito alegre, e cantava o dia inteiro (ele tinha um violão, e gostava de música sertaneja, tocava numa orquestra de violeiros da cidade). Logo após a notícia do Neurinoma ele parecia muito forte, e tentava acalmar minha Mãe. Mas não resistiu: no dia 27 de agosto de 1999, depois de um dia de trabalho, ele simplesmente “dormiu”. Foi um infarto fulminante, não adiantou correr para o hospital, foi tão rápido que parece que ele nem teve dores.
Eu estava em Campinas, no meio de todos os problemas, finalizando minha Dissertação, naquele dia eu tive orientação com o querido e brilhante Prof. Marcio Pochmann, que passava também por momento delicado na família, e teve uma “paciência de jó” comigo, pois eu já não escutava, e conseguimos terminar o trabalho. Naquele dia fui surpreendida pelas minhas amigas Márcia e Rosângela, e Gustavo, já com a minha mala pronta no carro, e me levaram para Guarulhos, tinham comprado minha passagem, e disse que eu tinha de ir para Goiás, pois meu Pai não estava bem e queria me ver. Eu não acreditei muito, mas me acalmei, viajei sozinha e até jantei. Quando cheguei no Aeroporto de Goiânia estavam meus grandes amigos, Tios e Primos mais próximos .... Há ... não precisavam me dizer nada.
Foi desesperador,....... com choros e gritos.
A partir dessa hora um anjo bom me conduziu, e falei: tenho que dar forças pra minha Mãe, e minha única irmã (mais velha 4 anos, casada, mãe de 2 filhos lindos). E dei. As pessoas vivem dizendo até hoje: “que é muito bom ter estudo, que eu sou muito forte etc, etc.” Mas eu chamo isso de fé.
Quando cheguei no local só pude pronunciar a frase: “meu Pai foi o melhor Pai do mundo.” Não quero menosprezar nenhum Pai, mas o meu foi perfeito.
Minha Mãe tinha medo que eu tivesse sentimento de culpa, mas não tive. Nenhum de nós teve culpa dos acontecimentos, pelo menos “nessa vida” não tivemos culpa. O que ficou foi uma prova de amor muito grande: hoje o meu Pai é o meu “anjo particular”, o meu sol, e está presente em todas as minhas decisões.
Fui para cirurgia do Neurinoma do lado esquerdo, por opção médica, pois era maior, no dia 17 de setembro de 1999. Exatamente 20 dias após o falecimento do meu Pai. Fiz a cirurgia na Otorrino da Unicamp, cujo responsável era Dr. Jorge Paschoal, mas o cirurgião foi o Neuro Dr. Ricardo Ramina, de Curitiba, que por onde eu falava o nome dele, todos me diziam: “é o melhor do país nessa área”.
Confiei, não fiz pesquisa, acho que nem tive tempo, ou cabeça. O Dr. Jorge Paschoal esteve comigo e queria adiar a cirurgia após o falecimento do meu Pai, disse para eu me fortalecer e decidir melhor, mas eu não quis. Tomei a atitude do tipo: “tenho que enfrentar o bicho papão” então que seja agora.
Bem, faltou falar do Gelson, um primo materno, jovem e grande amigo, que fez faculdade de medicina, se especializou em medicina do trabalho, e foi um companheiro de dor. Ele me esclareceu as informações mais importantes sobre o Neurinoma, e até foi para Campinas presenciar a cirurgia. Lembro que quando entrei na sala cirúrgica ele se aproximou e segurou a minha mão, e isso deu muita segurança. Posteriormente ele me ajudou “demasiadamente” em Goiânia, e até me acolheu na casa dele quando fiz Radiocirurgia do lado direito .... já vou chegar nessa parte.
A cirurgia (ou microcirurgia) realizada na Unicamp foi muito bem sucedida, saí da sala com paralisia facial do lado esquerdo, e perda completa de audição desse lado. Mas após 5 dias de internação tive alta, e o que mais incomodou foi uma reação “parece” meio alérgica a anestesia em que eu fazia náuseas sem parar, não consegui me alimentar até a saída do hospital. Só quando contornou as náuseas pude ir para casa. Saí caminhando, apoiada no braço da minha Mãe, mas muito feliz, pois, um médico me disse que uma lesão maior do nervo do equilíbrio poderia comprometer o caminhar.
Eu nem tinha “escutado” falar em Sífula, tirar um pedaço no abdomem para enchertar o local em que tira o tumor, só agora vendo os depoimentos do site do Neurinoma foi que vi a respeito. Eu não precisei de nada disso.
Há, o olho do lado da paralisia facial incomodou muitíssimo, pois, ficou muito seco, tinha que pingar lágrima artificial continuamente.
Mas tudo certo, me recuperei muito rápido. Alguns meses (3) depois fiz uma Eletroneuromiografia da face no Centro Médico de Campinas, por recomendação do Otorrino da Unicamp, e o Neuro pediu para aguardar uns 6 meses mais, para fazer a cirurgia do outro lado: pois era importante o movimento do lado bom para recuperação do outro lado. Então aguardamos.
Eu tinha concluído a Dissertação, e depositado antes da cirurgia, estava consciente do risco que envolve, e falei: “se eu morrer, levo o título”. Só um pouco de bom humor !!!! E foi que em dezembro de 1999 fiz a defesa da Dissertação em banca, que tinha até um ilustre Professor da UFRJ. Na verdade, foram muito gentis, me passaram as questões por escrito minutos antes da banca, e fizemos um “teatro” para o público. Sim, porque o que ficou de discriminação no ouvido direito era pouquíssimo, foi o ouvido que manifestou primeiro a perda auditiva. Tudo certo: fui Aprovada com Distinção.
Eu tinha um projeto de vida e não queria parar: cheguei a tentar o Doutorado após, mas não deu, e eu não me deixei frustrar. Agora a vida é mais importante, quem sabe um dia ?.
Enquanto aguardava a recuperação do nervo da face, me mandaram fazer Fonoterapia com a inesquecível Fga. Adriana Tessitore. Ela até fazia mestrado na Otorrino da Unicamp, mas cometeu uma “desobediência civil” e me falou: porque você não fez Radiocirurgia ? E me deu um folder do Hospital Santa Paula, em São Paulo. E gozado, quando estava me recuperando da cirurgia anterior, em Goiás, me deparei com uma matéria no jornal local falando do método e que já estava sendo realizada em Goiânia, era do Instituto Neurológico de Goiânia. Guardei a matéria, mas pensei que não servia para mim afinal: “eu não tinha um tumor no cérebro”, eu pensava.
Daí eu me mexi: mandei a matéria para o Gelson, fiz contato em São Paulo, e era muito caro, eu não tinha plano de saúde, mas o meu Pai tinha deixado alguns bens, e em Goiânia dava para bancar. Puxa, era um sonho ... nessa hora você vende o que tem se necessário.
Mas ,,, foi uma novela: vim para Goiânia, falaram que dava para fazer. Eu ainda participava de pesquisa na Unicamp, e os professores disseram que eu não ia deixar eu pagar. Tinham pessoas de lá no Ministério da Saúde, iam conseguir pelo SUS. Esperei uns 2 meses, e nada. Então resolvi que não dava para esperar mais. Vim para Goiânia chegando aqui, ligaram do Ministério da Saúde para eu ir fazer o procedimento no Hospital Beneficiência Portuguesa de São Paulo. Voltei, eu e minha Mãe. Chegando lá, era um médico “estrelão”, não quero falar mal, mas foi tão difícil que eu não lembro o nome dele, e nem guardo em nenhum lugar, ele pegou minha Ressonância e disse: “eu não faço, ... não dá mais, já está um pouco grande (tinha 3,5 cm, mais ou menos), o local é perigoso, tá encostando no tronco cerebral ................ EU NÃO FAÇO”. E me aconselhou a ir para a cirurgia convencional.
Eu chorei muito, e engraçado eu só chorei no momento primeiro da notícia do Neurinoma. Nunca chorei por ter perdido a audição. E nesse dia eu chorei muito.
Voltei para Goiânia, e teimei: disse que queria fazer !!!! Pode ser uma decisão muito irracional, mas vinha de dentro, do coração.
Faltou falar que além do Instituto Neurológico de Goiânia, o Gelson, aquele primo, tinha me levado ao Hospital Araújo Jorge, é onde funciona a Associação de Combate ao Câncer em Goiânia. E por isso mesmo a imprensão que, de modo geral, as pessoas têm do Hospital é muito ruim. E lá, no primeiro diagnóstico, o Radioterapeuta e Oncologista Dr. Wenzel de Abreu, falou que faria a minha Radiocirurgia mas Fracionada, já era um pouco grande. (e com recurso do SUS).
Mas não sei porque, achava que o Neurológico estava melhor equipado: ia pagar. Porém, aquele meu primo Gelson disse a eles que a Beneficiência Portuguesa me recusou, e eles voltaram atrás: decidiram que não iam fazer. Meu Deus.
Voltei para os “braços” do Dr. Wenzel de Abreu. Era novembro de 2000, já tinha passado mais de 1 ano da primeira cirurgia. Fiz a Radiocirurgia Esteotoráxica Fracionada em Goiânia – Goiás, em acho que 28 seções, sei lá ...., durou até dezembro. O mesmo esquema, equipe multidicisplinar, e inclusive o Neuro Dr. João Arruda atua também no Instituto Neurológico de Goiânia (aquele onde queria fazer inicialmente e pagando).
RECONSTRUI A MINHA VIDA.
No meu caso conseguimos paralisar o crescimento do tumor: não diminuiu, mas não cresceu. Já se passaram 3 anos, e acabei de fazer Ressonância (em 09/02/04), continua estabilizado. E meu Deus, eu estou muito bem. O lado da cirurgia convencional também está tudo bem, aliás, nem sabia que tinha muitos casos de recorrência do Neurinoma (já tem quase 5 anos).
Para mim foi um procedimento muito feliz: tive queda de cabelos, mas não chegou a calvície; não tive paralisia facial; o efeito mais negativo foram náuseas matinais durante uns 6 meses, mas contornadas com chás, e desapareceram. Primeira regra: tem que ter a cabeça fresca (muita fé), o tumor continua lá, mas eu nem lembro dele. Ainda tem os zumbidos desse lado, hoje parece mais com um “gemido”, mas não ligo para eles. Durmo muito bem. E enquanto ele (o tumor) for inofensivo quero que continue lá. Mil vezes melhor com ele (o tumor), do que encarar a outra cirurgia do crânio.
Não me fechei para a realidade, pode ser que eu necessite da cirurgia. Mas por ora VALEU MUITO A PENA ter feito a Radiocirurgia. Futuramente, quem sabe até buscar melhoras no sentido do Implante (ABI, ainda estou pesquisando e pensando). Lido bem com a surdez e tenho uma vida normal, tem que ter certeza se vale a pena.
No aspecto O SER, também tive muitas vitórias. Voltei para Goiânia desempregada, ia dar aulas mas com a surdez ficou muito difícil, optei por concursos públicos, fiz vários e levei pau. As pessoas pensavam que eu não queria batalhar emprego, tinha medo, mas ao contrário não deixei de acreditar, e no final de 2001 passei num concurso do Estado de Goiás, o cargo é de Gestor Público, e o salário é bem razoável para Goiás.
Não tinha carteira de motorista antes da cirurgia, e tirei em 2003: fiz prova 4 vezes, reprovei 3, fiz a “banca especial” do Detran para portadores de deficiência, com 2 médicos dentro do carro e isso dá mais adrenalina. Comprei carro, apartamento, e o mais importante: moro sozinha desde junho de 2003. Minha família continua morando no interior, sempre quis morar sozinha, e agora que veio a independência financeira Porquê Não?. Literalmente, sou uma surda independente.
Continuo sendo muito alegre, só que a reforma íntima veio junto: não bebo, não fumo (desde 1999), não como mais carnes vermelhas .... e só. Ainda gosto de festa, mas não de badalação. Prefiro boas companhias.
Tenho um namorado desde janeiro de 2003, na verdade é um amigo, o Hélio, que completa essa minha alegria de viver. Sem formalismo: acho que quem tem a minha história de vida não pode se preocupar com essas coisas de casamento, vestido de noiva etc. A gente se dá bem: às vezes quando penso nele tenho vontade de ter vida longa, então isso é positivo. E que Deus nos abençoe.
No capítulo filhos: sei que tem riscos de passar a NF2 para o bebê, então me cuido. Sei que posso inclusive recorrer a inseminação artificial para ter mais segurança. Mas, sinceramente não me sinto muito disposta a engravidar, o corpo já sofreu bastante. Gosto de crianças, talvez opte pela adoção daqui a uns poucos anos, se tudo estiver bem.
De tudo que falei, espero ter conseguido transmitir positivismo aos que vierem passar por situação semelhante: “a vida não pára só por causa de um (ou 2) Neurinoma (s). Você não deixa de ser você só por causa de uma limitação física.”
E um pouco de filosofia, sem querer ser “piegas”: quem tem que morrer, morre. Tem gente que nunca teve um problema de saúde e morre atravessando a rua, a gente vê a toda hora nos jornais. A minha hora vai chegar também. Se estou aqui, nesse instante, deve existir um motivo: o dono da vida me confiou esse papel. Então, VIVO FELIZ.
Obrigada a todos.
Elci.

Meus contatos:
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Elcileni de Melo Borges
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Ultima Atualização: 20 deAbril de 2004 as 22:00 horas
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