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ARTIGOS MÉDICOS
NEURINOMA
DO ACÚSTICO NA INFÂNCIA
Revista Brasileira de Otorrinolaringologia
SBORL - Soc. Bras. de Otorrinolaringologia
Oswaldo
L. M. Cruz*, Eduardo A . D. Veluttini**, Maria E. B. Pedalini***.
* Chefe do Setor
de Otologia da Disciplina de Otorrinolaringologia - EPM - UNIFESP. Professor
Livre-Docente em Otorrinolaringologia.
pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP.
** Assistente Doutor - Divisão de Neurocirurgia - Hospital das Clínicas
da FMUSP.
*** Fonoaudióloga do Setor de Fonoaudiologia do Hospital das Clínicas da
FMUSP.
Trabalho realizado no Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Endereço para correspondência: Rua Mato Grosso, 128/74 - 01239-040 São Paulo
/SP - Telefone: (0xx11) 256-6368 - Fax: (0xx11) 256 9268 - E-mail: olacruz@sol.com.br
Artigo recebido em 16 de fevereiro de 2000. Artigo aceito em 13 de julho
de 2000
RESUMO
O neurinoma do acústico não costuma encontrar-se entre as hipóteses etiológicas
da disacusia neurossensorial unilateral ou assimétrica na infância. Embora
a etiologia viral continue sendo a causa mais comum deste tipo de acometimento
auditivo nesta faixa etária, o schwanoma vestibular (ou neurinoma do acústico)
merece estar presente no diagnóstico diferencial, sendo o estudo por imagem
sempre aconselhável nesses casos porque, além de confirmar ou descartar essa
possibilidade, pode identificar a presença de malformações ou processos inflamatórios
agudos.
Além
da discussão desses aspectos e uma revisão da literatura sobre o tema, apresentamos
um caso de uma criança com oito anos de idade, com história de perda auditiva
profunda à direita, detectada há seis meses, cujo estudo por tomografia computadorizada
revelou a presença de neurinoma do acústico de aproximadamente 4 cm de diâmetro.
O tratamento cirúrgico possibilitou a remoção total do tumor; entretanto,
a criança evoluiu com paresia facial grau III. O diagnóstico mais precoce
neste caso talvez possibilitasse uma preservação funcional mais satisfatória
do nervo facial.
INTRODUÇÃO
O Schwanoma do acústico, não relacionado à neurofibromatose tipo 2, tem ocorrência
rara em crianças com menos de 16 anos de idade. A sua freqüência é ainda menor
nas faixas abaixo de 10 anos e, em nossa pesquisa bibliográfica, encontramos
apenas sete casos publicados que se encontram resumidos na excelente revisão
sobre o assunto de Kusunose e colaboradores2, de 1990.
Depois desta publicação, não pudemos encontrar nenhum outro relato até essa
nossa apresentação de um caso de neurinoma do acústico em uma criança com
oito anos de idade.
Além da peculiaridade do caso, pela sua baixa ocorrência, a discussão de alguns
aspectos clínicos da disacusia neurossensorial unilateral na infância, com
a inclusão da possibilidade diagnóstica do Schwanoma do acústico, nos parece
relevante, uma vez que, nessas circunstâncias, a perda auditiva unilateral
costuma ser relacionada à infecção viral, otites, traumas e síndromes genéticas,
o que remete o especialista a uma investigação que pode não facilitar a identificação
do tumor.
A apresentação deste caso tem a intenção de mostrar a necessidade de se lembrar
da possibilidade da ocorrência de tumores do VIII nervo, mesmo em crianças,
e que é indispensável a utilização de todos os recursos diagnósticos ao nosso
alcance na avaliação da disacusia neurossensorial unilateral infantil.
APRESENTAÇÃO DE CASO CLÍNICO
Avaliamos uma criança com oito anos de idade que apresentava queixa de perda
auditiva à esquerda há seis meses, percebida pela própria criança por não
conseguir falar ao telefone com esta orelha.
Apresentava ainda história de caxumba, ocorrida aos três anos de idade, e
nenhuma outra condição que pudesse estar relacionada com deficiência auditiva
como uso de ototóxicos, trauma, historia familiar de perda auditiva, otite
média ou outras doenças infecciosas.
O exame otorrinolaringológico foi normal, e não encontramos nenhuma evidência
da presença de Von Reckinghausen (manchas café com leite de pele, nódulos
etc.).
Figura1. Audiometria tonal mostrando disacusia neurossensorial
unilateral (esquerda), profunda, com 0% no índice de reconhecimento de fala.
O exame audiométrico revelou presença de disacusia neurossensorial profunda
à esquerda, média do limiar tonal (PTA) em 120 dB, 0% de resposta ao teste
de IRF (Figura 1), hiporreflexia vestibular homolateral e teste pendular rotatório
decrescente normal.
Testes audiométricos anteriores, realizados em outra clínica dois meses antes,
mostravam perda auditiva de menor intensidade (PTA em torno de 60 dB), mas
já com discriminação comprometida (0%).
Os exames laboratoriais revelaram a presença de anticorpos contra vírus da
caxumba da classe IgM, caracterizando contato prévio, mas não doença recente
ou ativa. Não havia anticorpos contra vírus herpes simples e citomegálico.
A tomografia computadorizada mostrou a presença de grande massa tumoral na
região do ângulo-pontocerebelar direito, com captação uniforme do contraste
iodado, de aproximadamente 4 cm no seu maior eixo, centrada no canal auditivo
interno (Figura 2). Não foram observadas alterações da cápsula ótica nem da
orelha média.
O diagnóstico de Schwanoma do acústico foi estabelecido; e a criança, submetida
à exérese total do tumor por via subocciptal. O pós operatório, transcorreu
sem intercorrências, exceto pela presença de paresia facial grau IV (House-Brackmann).
O exame histopatológico confirmou tratar-se de Schwanoma do tipo Antoni A.
O controle tomográfico pós-operatório mostrou-se satisfatório, confirmando
a ausência de tumor residual (Figura 3). Durante o seguimento pós-operatório,
pôde-se observar uma melhora funcional do nervo facial até grau III de (House-Brackmann),
ao final do primeiro ano.
Figura 2. Tomografia computadorizada, corte coronal, após injeção de contraste,
revelando processo expansivo centrado no canal auditivo interno, de grandes
proporções, caracterizado como neurinoma do acústico à esquerda.
Figura 3. Tomografia computadorizada, corte axial, pós-operatório, demonstrando
a ressecção total da massa e o defeito ósseo da craniotomia suboccipital retromastóidea.
DISCUSSÃO
O Schwanoma do acústico tem ocorrência muito pequena em crianças não portadoras
de neurofibromatose. Na faixa etária inferior a 10 anos de idade, somente
sete casos foram apresentados na literatura de língua inglesa e nenhum na
literatura portuguesa.
Em relação às manifestações clínicas do neurinoma do acústico, elas são quase
idênticas tanto nas crianças quanto nos adultos5. Mas, um fato relevante é
que na maioria das vezes esses tumores só são descobertos na infância, quando
já existem sintomas neurológicos, uma vez que a disacusia unilateral não costuma
ser percebida pela criança.
Mesmo quando existe a queixa e a detecção da perda auditiva, esta costuma
ser atribuída à caxumba, a eventual otite média aguda, a otite secretora ou
a causas mais difíceis de serem determinadas, como a genética, por exemplo.
Devido a esses aspectos, não é freqüente, especialmente em nosso meio, a solicitação
de exames laboratoriais ou por imagem na rotina da avaliação da disacusia
neurossensorial unilateral na infância.
Entretanto, nos parece fundamental a utilização de todos os recursos disponíveis,
devido aos aspectos etiológicos multifatoriais nesse casos3, como, por exemplo,
a pesquisa dos anticorpos antivírus da caxumba e os exames por imagem.
A indicação da avaliação por imagem visa não apenas a pesquisa do neurinoma
do acústico, mas também a detecção de eventuais malformações da orelha interna.
Embora a ressonância magnética seja o exame por imagem mais sensível na pesquisa
do neurinoma, a nossa orientação nestes casos é preferir a tomografia computadorizada
justamente pela possibilidade de detecção de malformações que ainda não são
evidenciadas pela ressonância magnética. Nos casos em que existam evidências
de acometimento inflamatório, como otites ou infecções virais recentes, a
ressonância poderá demonstrar a presença de atividade inflamatória da orelha
interna.
Outro aspecto fundamental é a valorização dos achados dos testes audiológicos.
O caráter progressivo da perda neurossensorial, a unilateralidade ou a assimetria
do envolvimento, a desproporcional baixa da discriminação auditiva e a ausência
do reflexo estapediano (quando a perda auditiva ainda permite a sua pesquisa)
merecem sempre uma atenção especial e são indicativos da necessidade de prosseguirmos
na investigação. Havendo possibilidade, está indicada a realização dos potenciais
evocados, além dos exames laboratoriais e por imagem já mencionados.
O tratamento de escolha para o Schwanoma é cirúrgico, não havendo outra modalidade
terapêutica que possa ser aplicada na infância.
No caso apresentado, a cirurgia transcorreu sem intercorrências, embora existam
descrições sobre algumas dificuldades próprias da infância, como maior sangramento
devido a um aumento da vascularização tumoral1,4. Mesmo a recuperação funcional
do nervo facial mostrou-se compatível com nossos resultados em ressecções
de tumores grandes, mostrando que o comportamento desse nervo na infância
é o mesmo dos adultos em termos de resistência ao trauma operatório. Entretanto,
caso o diagnóstico tivesse ocorrido antes, a ressecção de um tumor de menores
proporções com certeza contribuiria para um melhor resultado funcional do
nervo facial.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ALLCUT, D. A.; HOFFMAN, H. J.; ISLA, A.; BECKER, L. E; HUMPHREYS, R. P.
- Acoustic schwannomas in children. Neurosurgery, 29: 14-18, 1991.
2. KUSUNOSE, M.; NISHIJIMA, M.; OKA, N.; YAMATANI, K; TAKAKU, A. - Acoustic
neurinoma in a child. Neurol. Surg., (JP), 18: 301-306,1990.
3. MATTUCCI, K. F.; GLASS, W. M.; SETZEN, M.; LEVIN, W. - Childhood acoustic
neuroma. N. Y. Stae J. Med. (December): 665-666, 1987.
4. RUHWORT, R. G.; STORBY, W. A.; SMITH, S. F. - Acoustic neuroma in a child
treated with the aid of preoperative arterial embolization. J. Neurosurg.,
61: 396-398, 1984.
5. SCHULMAN, M. H.; WELCH, K.; STRAND, R.; ORDIA, J. Á. - Acoustic neuromas
in children. AJNR 7: 519-521, 1986.
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