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ARTIGOS MÉDICOS

ESCLARECENDO A HOMEOPATIA
Dr. Marcus Zulian Teixeira

Grande incompreensão existe a respeito da especialidade médica chamada Homeopatia, sendo confundida, pela maioria das pessoas, com a Fitoterapia, que é a utilização de plantas medicinais no tratamento de doenças, a qual se assemelha mais ao tratamento convencional do que ao modelo homeopático, como veremos a seguir.

Desde a Grécia Antiga, a Medicina possui duas correntes terapêuticas, fundamentadas no princípio dos contrários e no princípio dos semelhantes. Em conseqüência da primeira surge a chamada Alopatia e a própria Fitoterapia, que buscam combater sintomas isolados da enfermidade com substâncias (sintéticas ou naturais) que atuem contrariamente aos mesmos (anti-), anulando-os (Ex: anti-inflamatório para a inflamação, anti-ácido para a acidez, anti-depressivo para a depressão, anti-térmico para a febre, etc.).

Baseando-se no princípio da similitude, Samuel Hahnemann criou, há mais de 200 anos, a Homeopatia, apoiando-se na observação experimental de que toda substância capaz de provocar determinados sintomas numa pessoa sadia, é capaz de curar estes mesmos sintomas numa pessoa doente.

Contrariamente ao que se pensa, a Homeopatia é um sistema científico bem definido, com uma metodologia de pesquisa própria, apoiada em dados da experimentação clínica dos medicamentos no homem são, que podem ser reproduzidos a qualquer momento, como o foram ao longo dos séculos.

O homeopata tem como meta encontrar um medicamento que englobe a totalidade das características individuais do paciente, administrando ao mesmo uma substância que foi capaz de despertar nos experimentadores sadios sintomas semelhantes (homeo) aos que se desejam combater, estimulando o organismo a reagir contra a sua enfermidade.
Segundo a concepção filosófica homeopática, a origem primária de qualquer doença está na perturbação da força vital, entendida como uma forma de energia primordial e fundamental responsável pela manutenção da vida e do equilíbrio orgânico. Portanto, a essência do desequilíbrio da saúde encontra-se num nível imaterial (energético) no qual interagem nossas forças psíquicas (pensamentos e sentimentos) e que retrata os fatores íntimos a que cada ser é suscetível.

Para atuar nesta natureza imaterial do homem, a Homeopatia utiliza medicamentos em doses infinitesimais, preparados segundo o processo farmacotécnico da dinamização (diluições e agitações sucessivas), através do qual busca-se a liberação dos poderes energéticos vitais contidos nas substâncias, respaldado no conceito universal de que "toda matéria é energia condensada". Desta forma, o medicamento homeopático desperta uma reação vital orgânica contrária aos sintomas do desequilíbrio vigente, funcionando como um direcionador do processo de cura interior. Acreditamos que caberá à Física, futuramente, a mensuração desta forma de energia sutil (energia ou força vital), assim como o fez no passado com a eletricidade, o magnetismo, as radiações, etc.

Cada medicamento homeopático, experimentado no indivíduo sadio, provocou uma série de sintomas (mentais, gerais ou locais), que devem ser semelhantes aos sintomas do indivíduo enfermo, para conseguirmos trazê-lo ao estado de saúde. Em vista disso, torna-se indispensável o conhecimento dos sinais e sintomas objetivos e subjetivos do paciente, a fim de podermos encontrar o remédio que mais se lhe assemelhe. Disso denota o interesse do médico homeopata por particularidades individuais, que pode ser considerado estranho por quem não entenda o modelo homeopático.

Daí a necessidade de um interrogatório profundo, no qual se busca a compreensão da totalidade sintomática característica do indivíduo, manifesta na forma de ser e reagir frente ao meio e às pessoas que o cercam. Tudo que diga respeito ao paciente exprime o estado de sua força vital, desde os conteúdos imaginários e fantásticos, passando pelos sonhos, sensações, sentimentos e pensamentos, até as características gerais e físicas que o caracterizam. O homeopata espera que os sofrimentos físicos e morais sejam expressos de uma forma espontânea, sincera e detalhada, a fim de que num clima de compreensão recíproca entre médico e paciente possa-se desenvolver o trabalho de equipe na busca do medicamento correto.

Para isso, torna-se fundamental ao paciente, e aos que o acompanham, a observação constante do seu modo de pensar, sentir e agir, procurando entender as causas profundas que o fizeram adoecer e renovando em si mesmo o diálogo interior na prática do ensinamento grego: "Conheça-te a si mesmo". Devemos frisar que o entendimento íntimo do ser humano é um trabalho árduo e que deve ser adquirido gradativamente, segundo o esforço que cada um empregue nesta tarefa de auto-análise, estando neste conteúdo de conflitos, de modo geral, o fator desencadeante para a instalação de grande parte das enfermidades.

Para os sintomas locais ou físicos, com os quais estamos mais familiarizados, devemos observar todas as particularidades que os tornam característicos a cada indivíduo (modalizações): tipo de dor ou sensação; localização e irradiação; época e hora de surgimento; fatores de melhora ou piora; sintomas ou sensações concomitantes; etc.

Quanto aos sintomas gerais, que representam as características generalizantes do organismo ou que se relacionam aos vários sintomas, melhorando ou agravando-os, devemos valorizar as seguintes modalidades: posições ou movimentos; temperatura, clima ou estação do ano; condições atmosféricas e do tempo; comidas e bebidas; transpiração, eliminações, evacuações; etc.

A grande importância dada por Hahnemann ao sintomas mentais, ou seja, às características relacionadas ao pensar e ao sentir, ao caráter e à moral, mostra a compreensão ampla que ele tinha das doenças, por abordar um tema que só agora começa a ser aceito pela Medicina (psicossomática). São estes os sintomas mais difíceis de serem relatados, por constituírem um plano mais importante da individualidade e por delatarem nossas limitações e fraquezas, que, por defesa, buscamos esconder a todo custo.

Na escolha do medicamento, a Homeopatia Unicista tenta abranger com um único remédio a totalidade característica dos sintomas, buscando na compreensão íntima do indivíduo as suscetibilidades que o fazem adoecer. Importa frisarmos que a Homeopatia não é inócua, podendo causar sérios danos ao organismo quando mal empregada, devendo-se evitar a medicação abusiva e sem critérios precisos.

É de fundamental importância que se observe o aparecimento de qualquer mudança significativa após a ingesta do medicamento, em todos os níveis, anotando suas características particulares, época de surgimento, duração, intensidade, etc. Podem ocorrer reações de agravação, retorno de sintomas antigos, episódios febris benignos, reações de eliminação (através da pele, das secreções ou por vias naturais), indicando que o organismo está se empenhando em encontrar o seu equilíbrio e, por isto, devem ser respeitadas. Geralmente, estas reações são breves e acompanhadas de uma melhora geral do quadro. O surgimento de sintomas novos incomodativos, que antes não existiam, além das agravações muito intensas e prolongadas, deverão ser comunicadas ao médico.

Com estes esclarecimentos, desejamos auxiliar na compreensão de aspectos básicos aos que buscam auxílio na Homeopatia, familiarizando-os com conceitos e condutas diversas do modelo terapêutico convencional.

Lembremos que a cura não significa o desaparecimento deste ou daquele sintoma em si; ela requer que o doente tenha atingido um ótimo estado de equilíbrio físico, emocional e psíquico:

"No estado de saúde, a força vital imaterial, que dinamicamente anima o corpo material, reina com poder ilimitado e mantém todas as suas partes em admirável atividade harmônica, nas suas sensações e funções, de maneira que o espírito dotado de razão que reside em nós possa livremente dispor desse instrumento vivo e são para atender aos mais altos fins de nossa existência." (HAHNEMANN, Organon, § 9)

RACIONALIDADE CIENTÍFICA DO MODELO HOMEOPÁTICO
Dr. Marcus Zulian Teixeira

Freqüentemente, a classe homeopática tem sido surpreendida por críticas ao seu modelo terapêutico, na maioria das vezes por indivíduos que desconhecem os preceitos básicos da Homeopatia. O jargão mais utilizado por estas pessoas é que a Homeopatia "não apresenta comprovação científica".

Lembremos que os pilares fundamentais da Homeopatia são o princípio da semelhança e a experimentação no indivíduo humano e sadio. Neste artigo, concentramos nossas pesquisas no estudo da Lei dos Semelhantes, que ao ser confirmada pela metodologia científica atual, aproxima a Homeopatia à episteme moderna.

Importa salientarmos que o modelo homeopático é fundamentalmente experimental, fruto da observação cuidadosa do efeito das drogas no organismo humano. Apoiado nestas evidências, SAMUEL HAHNEMANN desenvolveu o tratamento pela similitude. Nos parágrafos 63 e 64 de sua obra máxima, Organon da arte de curar, HAHNEMANN estipula o mecanismo de ação das drogas, sistematizando-o: "toda droga causa uma certa alteração no estado de saúde humano pela sua ação primária; a esta ação primária do medicamento, o organismo opõe sua força de conservação, chamada ação secundária ou reação, no sentido de neutralizar o distúrbio inicial".

Observando que esta "ação secundária" poderia ser empregada como reação curativa, desde que direcionada no sentido correto, HAHNEMANN propôs um modelo terapêutico que se utilizaria de medicamentos que produzissem, em sua ação primária no organismo, sintomas semelhantes à doença natural, no intuito de despertar uma reação orgânica para anular esta doença artificial e, conseqüentemente à semelhança de sintomas com a doença original, neutralizaria também esta última. Daí surgiu o princípio terapêutico pela similitude: "todo medicamento capaz de despertar determinados sintomas no indivíduo sadio, é capaz de curar estes mesmos sintomas no indivíduo doente".

Assim fundamentado, HAHNEMANN passou a experimentar uma série de substâncias em indivíduos considerados "sadios", anotando todos os sintomas (primários) que neles surgissem, confeccionando com isto a Matéria Médica Homeopática. À medida que defrontava pacientes com sintomas semelhantes às drogas experimentadas, aplicava-as a estes enfermos, no sentido de despertar a reação secundária e curativa do organismo, obtendo com isto a cura dos mesmos.

Deste modo, a aplicação do princípio terapêutico homeopático implica no estimular uma reação homeostática e curativa, direcionada pela ação primária da droga que causou no experimentador "sadio" sintomas muito semelhantes aos sintomas da doença original.

Realizando a ponte com o cientificismo atual, utilizando-nos da Farmacologia Moderna, encontramos uma infinidade de relatos, tanto em compêndios farmacológicos como em publicações científicas, que descrevem uma reação secundária do organismo a um estímulo primário drogal, confirmando o citado por HAHNEMANN. Esta ação secundária do organismo, no sentido de manter a homeostase orgânica, é denominada de efeito rebote ou reação paradoxal, segundo a racionalidade científica atual.

Ilustrando o acima exposto, teríamos que drogas utilizadas classicamente para o tratamento da angina de peito, promovendo, inicialmente, melhora da dor como efeito primário, despertam, como ação secundária ou efeito rebote, após a suspensão da medicação ou tratamento irregular, exacerbação da dor torácica, tanto na freqüência como na intensidade, em alguns casos não respondendo a qualquer terapêutica. Drogas utilizadas no controle da hipertensão arterial podem provocar uma hipertensão arterial de rebote, como reação secundária ao estímulo primário. Agentes cardiotônicos, empregados no tratamento da insuficiência cardíaca, promoveram, após a interrupção da administração, rebote hemodinâmico, com riscos de desencadear severos problemas cardíacos.

Fármacos empregados para diminuir o colesterol, despertaram um aumento rebote e significante do colesterol sanguíneo. No emprego de drogas psiquiátricas (ansiolíticas, sedantes ou hipnóticas, antidepressivas, antipsicóticas, etc.), observou-se uma reação do organismo no sentido de manter a homeostase orgânica, promovendo sintomas opostos aos esperados na sua utilização terapêutica primária. Medicamentos neurológicos, utilizados em sua ação primária para evitar convulsões, movimentos discinéticos ou contrações musculares, apresentam como reação secundária ou efeito rebote, após a suspensão da medicação, exacerbação destes mesmos sintomas.

Drogas antiinflamatórias, utilizadas primariamente para suprimir a inflamação, desencadeiam respostas secundárias no organismo aumentando a concentração sangüínea dos mediadores da inflamação. Drogas anticoagulantes, empregadas por seu efeito primário na profilaxia da trombose sangüínea, promovem complicações trombóticas como efeito secundário ou rebote. Diuréticos, utilizados primariamente para diminuir a volemia (edema, hipertensão arterial, ICC, etc.), causam, como efeito rebote, aumento da retenção de sódio e potássio, com conseqüente aumento da volemia. Medicamentos empregados para a dispepsia (gastrites, úlceras gastroduodenais), como antiácidos e antagonistas do receptor H2, promovem, após o efeito primário de diminuição da acidez, aumento rebote ácido e piora das úlceras gastroduodenais. Fármacos empregados na asma brônquica, como os broncodilatadores e corticosteróides inalatórios, desencadeiam piora da broncoconstrição, como resposta secundária do organismo à suspensão ou descontinuidade do tratamento.

Trazendo algumas das muitas evidências encontradas no cientificismo moderno sobre os principais fundamentos da Homeopatia, completemos o relato com o emprego de drogas convencionais segundo o método homeopático. Utilizando-se da reação secundária do organismo como forma de tratamento (princípio homeopático), administrou-se um contraceptivo bifásico (anovulatório) para pacientes que apresentavam esterilidade funcional, incapazes de ovular e engravidar. Após a suspensão da droga, observou-se a ovulação em aproximadamente 25% das pacientes e, destas, 10% engravidaram. Outras drogas modernas poderiam ser utilizadas segundo o método homeopático de tratamento, desde que provocassem no indivíduo "sadio" os mesmos sintomas que se desejam tratar no indivíduo doente, apesar do emprego de uma "similitude parcial", diferente da similitude totalizante e individualizadora empregada pela Homeopatia.

Neste breve relato, citei algumas evidências da racionalidade científica moderna, contidas na obra Semelhante Cura Semelhante - O princípio de cura homeopático fundamentado pela racionalidade médica e científica, que acredito possam servir de base para estudos homeopáticos futuros dentro do meio acadêmico e científico, a fim de nos aproximarmos e contribuirmos ao desenvolvimento da Arte Médica.

Quanto aos ensaios clínicos duplo-cego, que demonstrem estatisticamente a eficácia do medicamento homeopático frente ao uso do placebo, questionados por muitos colegas adeptos da "medicina baseada em evidências", cito duas metanálises que evidenciam cientificamente a superioridade do medicamento homeopático perante o placebo.

Dr. Marcus Zulian Teixeira
www.homeozulian.med.br

• KLEIJNEN, J., et al. Clinical trials of Homeopathy. British Medical Journal, 1991, 302: 316-323.

• LINDE K. et al. Are the clinical effects of homeopathy placebo effects? A meta-analysis of placebo-controlled trials. Lancet, 1997, 350 (9081): 834-43.

No polêmico tema do emprego das altas diluições homeopáticas (doses mínimas), inúmeros trabalhos têm confirmado a eficácia das mesmas em seres vivos, conforme as referências que se seguem:

• BASTIDE, M. et al. Immunomodulatory activity of very low doses od thymulin in mice. Int. J. Immunotherapy, 1987, 3: 191-200.

• DOUTREMEPUCH, O. et al. Platelets aggregation on whole blood after administration of ultra low dosage of acetylsalicylic acid (ASA) in healthy volunteers. Thrombosis Research, 1987, 47: 373-377.

• DAVENAS, F. et al. Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE. Nature, 1988, 333: 816-818.

• BASTIDE, M. Signals and Images. Dordrecht: Kluwer Academic, 1997, 299p.

Referência Bibliográfica:

• TEIXEIRA, Marcus Zulian. Semelhante Cura Semelhante - O princípio de cura homeopático fundamentado pela racionalidade médica e científica. São Paulo: Editorial Petrus, 1998, 463 p.

• TEIXEIRA, Marcus Zulian. A similitude in modern pharmacology. British Homeopathic Journal (1999) 88, 112-120.

 

 


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Ultima Atualização: 05 de Setembro de 2003 as 10:00 horas
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